28 de março de 2014

As criaturas do pântano amaldiçoado


Ainda sob o signo das presidenciais de 2006, desenhei duas tiras, correspondentes a cada um dos principais candidatos: Cavaco Silva e Mário Soares (é verdade que Manuel Alegre ficou em segundo lugar, mas nunca deixou de ser uma personagem secundária). A tira dupla de hoje é a que corresponde a Soares, e recorda as linhas mestras da sua argumentação eleitoral. Com o seu imenso ego, o complexo de superioridade típico de uma certa "Capital do Império", e a arrogância de quem se julga dono da república, Soares, na tentativa de regresso à presidência, achou por bem comparar o seu pretenso cosmopolitismo com o suposto provincianismo de Cavaco: acusou-o de fugir ao debate, de falta de cultura, de conhecimento, e de peso internacional - entre outras coisas. Apoiado pelo PS, então no Governo, averbou aquela que foi talvez a sua maior derrota em eleições: um 3.º lugar com 14% dos votos expressos.

27 de março de 2014

D. Bibas, o bobo do corte


Tendo como tema as presidenciais de 2006, este cabeçalho comentado por D. Bibas é o resultado da inclinação do espectro partidário português à esquerda: a direita quase não existe como tal, ou diz-se do centro, os liberais dizem-se social-democratas, os social-democratas intitulam-se socialistas (e convém não esquecer que todos juntos valem 85 a 90 por cento do eleitorado). Só assim é possível entender as declarações de Maria Helena da Bernarda acerca de Cavaco Silva como um candidato de esquerda - depende do ponto de vista. Mas não deixa de soar estranho...

26 de março de 2014

O Zé, a Maria Lusa e o Político

Cavaco Silva, afastado do poder desde 1995 e derrotado nas presidenciais de 1996, passou uma década a pavimentar pacientemente o caminho que o havia de levar com êxito ao palácio de Belém. Na pré-campanha das presidenciais de 2006, com as sondagens a seu favor e tendo por opositores cinco candidatos de esquerda, impôs o modelo de debate televisivo que lhe era mais favorável: debates a dois. Evitava assim fragmentar o seu tempo de intervenção contra dois ou mais candidatos que iam previsivelmente abrir fogo sobre si, repetindo mais ou menos a mesma argumentação e deixando-o permanentemente em situação de desvantagem.

25 de março de 2014

Gajo Borbulha


Mais uma tira desta série, sem comentários. Tudo o que há a saber está aqui.

24 de março de 2014

D. Bibas, o bobo do corte

O Mário Teixeira tem uma ligação especial ao Canadá, e as notícias relacionadas com esse país serviram-lhe também de inspiração, como se pode comprovar nesta tira. Em 2005, a meio da nossa "década perdida", notícias como a citada - onde o governo canadiano se propunha devolver parte do excedente orçamental aos contribuintes - pareciam aos nossos olhos como se fossem de outro mundo.

22 de março de 2014

30 de Fevereiro - 10.º Aniversário





Faz hoje dez anos que se iniciou o 30 de Fevereiro. Nos primeiros três aniversários, sendo que esses quatro anos foram os de actividade mais intensa, assinalei a data com pequenas montagens, que ilustravam a frase "xis anos a partir pedra". Sob o lema "Contra a corrente", "partir pedra" seria a consequência natural do "água mole em pedra dura"... mas, basta de frases feitas, vamos aos desenhos e etecéteras.
Em primeiro lugar, num estilo vagamente maoista, a Vénus de Milo não seria o que é hoje se alguém (ou algo) não a tivesse mutilado. Na segunda imagem recorri a uma iluminura medieval que representa uma mina, o lugar onde se parte pedra por excelência, sem interferir na imagem. Por último, fiz uma montagem de dois técnicos frente às ruínas de Stonehenge, com ar de quem acaba de descobrir um filão...

21 de março de 2014

Valha-me Deus!



A razão desta tira é extremamente fútil. Descobri, num artigo de um jornal diário, que o então vice-presidente da bancada do PSD-Madeira, no parlamento regional, tinha o invulgar e sugestivo nome de Coito Pita. É fácil fazer humor sobre isso, mas acreditem que tenho uma ponta de inveja. Imaginem-me com um nome destes a apresentar-me numa festa a uma dessas gatas acaloradas que já vão no terceiro vodka. «E tu, como te chamas?» dir-me-ia ela. «Para ti Coito, Pita!» respondia eu... é bom de mais para ser verdade.

20 de março de 2014

Gajo Borbulha


A partir de meados de 2005, o Mário Teixeira decidiu passar a colorir as tiras destinadas ao 30 de Fevereiro. A primeira tira colorida do D. Bibas foi publicada ontem, hoje temos o Gajo Borbulha, e em breve teremos a d'O Zé & Maria Lusa.
A frase-chave aqui, "a inversão do ónus da prova", surgiu no momento em que se iniciou a discussão sobre novas formas de combate à corrupção e a criminalização do enriquecimento ilícito. Nove anos passados, a questão é ainda fonte de controvérsia. O conceito, contudo, tem esbarrado nas garantias constitucionais, pois cabe à justiça provar que o acusado cometeu o delito - em vez de ser o acusado a provar a sua inocência.

19 de março de 2014

D. Bibas, o bobo do corte



No Verão de 2005, com a escassez de notícias, as televisões criaram o caso do "arrastão", na praia de Carcavelos, nos arredores de Lisboa. O caso conta-se em poucas palavras: uma série de roubos, praticados em bando, deu origem à intervenção da polícia e foi transformado, nos noticiários da noite, num "arrastão" à brasileira. D. Bibas refere-se aqui à hipersensibilidade do BE relativamente às referências étnicas em questão - ao que parece, os ladrões seriam de raça africana. Aliás, como toda a gente sabe, o Bloco tem uma predilecção por minorias; ou antes, determinadas minorias, pois até há quem diga que a mascote favorita do Bloco seria um indivíduo negro, homossexual e estrangeiro...

14 de março de 2014

Professores avaliados



Cerca de dois anos depois do "cartoon" mostrado ontem, a avaliar pelo teor deste "cartoon", ter-se-á chegado a um aparente consenso sobre a avaliação, depois da demissão de Maria de Lurdes Rodrigues, é claro. Um consenso que durou até à greve seguinte, já ninguém se lembra qual...
Há que reconhecer o valor de Mário Nogueira. Sindicalista profissional desde 1991, também tem sido "avaliado" (da maneira que sempre defendeu) e progredido na carreira como professor - isto sem dar uma única aula há décadas, recorde-se! (ler aqui). Entretanto deve ter conhecido mais de uma dúzia de ministros da educação, que triturou um após o outro. Basta lembrar a forma como tem ganho todos os "rounds" a Nuno Crato - por KO, pois acaba sempre por ceder tudo e em toda a linha -, cuja inépcia e amadorismo embatem de tal modo na couraçada eficácia da Fenprof que até mete dó.
Mário Nogueira, que não brinca em serviço, é, de facto e há muito, o verdadeiro ministro da Educação. E fez saber, por estes dias, que voltará a dar aulas num futuro próximo. Pobres dos alunos...

13 de março de 2014

Professores indignados



A Fenprof, referida na entrada anterior, dá o pretexto para este "cartoon". Num país onde bastava a um funcionário público deixar correr o tempo para progredir na carreira - independentemente do esforço ou do mérito, apenas era necessário não fazer asneira da grossa - a ideia de avaliação foi, como era de esperar, rejeitada. Diga-se, em abono da verdade, que as tímidas tentativas reformistas do governo PS só surgiram perante a pressão da incomportável despesa pública, mas custaram o lugar a vários ministros. Correia de Campos, ministro da Saúde, engrossou a longa lista dos que puseram médicos e enfermeiros (e populações, já agora) em polvorosa; Maria de Lurdes Rodrigues, na Educação, enfrentou a "besta negra" da Fenprof e, obviamente, perdeu.
À primeira vista - e o "cartoon" partilha dessa perspectiva - parecia que toda a oposição se tinha unido contra as medidas do governo para o sector; na verdade era uma questão corporativa, transversal e exterior aos partidos, como se veio a evidenciar mais tarde, se ainda dúvidas subsistiam. No 30 de Fevereiro, o "cartoon" provocou reacções na página de comentários, apesar de não ser propriamente contra os professores, mas contra um determinado tipo de mentalidade.

12 de março de 2014

D. Bibas, o bobo do corte



D. Bibas especula nesta tira sobre as "ligações perigosas" entre o PCP e o PSD, numa altura em que parecia haver um acordo tácito contra a governação PS. Embora os factos referidos sejam auto-explicativos, mesmo assim vou fornecer o contexto, dado que para além do evidente há outras alusões eventualmente obscurecidas pela passagem do tempo.
O sindicato afecto ao PCP é a Fenprof, que vai proporcionando ao partido, através da gritaria e das greves cirúrgicas, as vitórias que, em 40 anos de regime, jamais obteve nas urnas. Quanto a Zita Seabra é uma senhora que nos dias de hoje dirige uma respeitável editora, mas já foi deputada e dirigente do PSD, anos depois de ter desempenhado os mesmos cargos no PCP. Quanto aos "Ruis", Rui Rio era o presidente social-democrata do Município portuense, e Rui Sá o vereador comunista que lhe servia de "bengala", recebendo como contrapartida, entre outros cargos, a presidência dos Conselhos de Administração dos Serviços Municipalizados de Água e Saneamento.

28 de fevereiro de 2014

O Zé, a Maria Lusa e o Político


A realidade que serviu de inspiração para esta tira foi o congresso do CDS-PP de 2005, no rescaldo das eleições legislativas que já várias vezes foram aqui referidas. Ora, esse congresso teve um desenvolvimento inesperado: com Paulo Portas de malas aviadas para a sua breve estadia nos Estados Unidos, estava tudo mais ou menos preparado, entre o trio Portas, Nobre Guedes e Telmo Correia (o trio que protagoniza esta tira), para que este último fosse o seu sucessor; no entanto, para surpresa geral, quem se impôs à última hora foi Ribeiro e Castro, que assim estragou os planos já traçados.

26 de fevereiro de 2014

O Zé, a Maria Lusa e o Político

Mais uma tira de ZML para os "extras", pois é datada de 2003. Aqui se recorda o voluntarismo de Durão Barroso em relação à iminente guerra do Iraque, e a sua argumentação em francês arrevesado. A propósito, alguém se lembra ainda do que ele respondeu quando, na TV, lhe perguntaram se, de facto, existiam armas químicas que justificassem o ataque ao Iraque? Eu lembro-me; ele respondeu assim: "Eu vi as provas." O que significa que mentiu deliberadamente, ou que Bush e comparsas o enganaram por imbecil.

22 de fevereiro de 2014

O Zé, a Maria Lusa e o Político


 
No momento que decorre mais um congresso do PSD, recordamos uma tira que remete para um outro congresso, em 2005, onde Santana Lopes deixou outra das suas frases lapidares: "não mais abandonar mandatos a meio". Daí o seu regresso fugaz à Câmara Municipal de Lisboa, que já tinha sido tema de outra tira, da série Jardim de Bananas.

21 de fevereiro de 2014

D. Bibas, o bobo do corte



A derrota dos partidos do governo PSD-CDS nas eleições legislativas de 2005 promoveu uma rápida substituição das respectivas lideranças. O que sucedeu no CDS-PP foi tema da anterior tira do D. Bibas; no caso do PSD (a matéria da presente tira) deu-se a ascensão de Marques Mendes, que na própria noite de eleições tinha vincado que era preciso "mudar de vida". Porém, mais facilmente foi ele próprio mudado, pois esteve apenas dois anos à frente do partido, sem deixar grandes marcas. De baixa estatura física, combustível para alguma zombaria, dessa época recordam-se os debates parlamentares, onde o então primeiro-ministro, reconhecido cinturão-negro do palavreado, lhe ganhava facilmente todos os combates.

19 de fevereiro de 2014

A «democracia» tutelada



Apesar de publicado em 2005, no 30 de Fevereiro, a propósito de factos ocorridos na época, vou etiquetar este "cartoon" nos "extras", pois está datado de 1999. Também não é por acaso que faz parte do livro 'TamosTramados, porque, como se pode comprovar, há coisas que nunca mudam. Em Portugal, os governos só exercem o poder pelo mínimo denominador comum, porque houve sempre um conselho, um tribunal, um procurador, um presidente, um sindicato, um grupo de pressão, uma providência cautelar, um burocrata estrangeiro, e todo o filho-de-mãe mais o cão que o acompanha, para fazer valer a sua justiça - com a particularidade de praticamente todos eles jamais terem ido a votos. É bem certo que, como diz o ditado, "massa onde todos metem a mão não dá bom pão".

11 de fevereiro de 2014

Jardim de Bananas


Em finais de Março de 2005 a Vicaima, uma indústria de madeiras de Vale de Cambra, esteve envolvida numa polémica com a Greenpeace, que acusava a empresa de utilizar madeira proveniente do abate ilegal de árvores na Amazónia Os activistas bloquearam a entrada da fábrica, acorrentando-se ao portão, o que despoletou uma confusão e desacatos, com agressões físicas entre administradores, manifestantes e um repórter de imagem de uma televisão. A cena está disponível no YouTube - parece um filme do Steven Seagal, mas com palavrões.
A última tira do Jardim de Bananas publicada no 30 de Fevereiro, fazia referência ao comportamento do tal administrador, e, quanto a mim, ele saiu favorecido no retrato...

4 de fevereiro de 2014

D. Bibas, o bobo do corte


Depois das legislativas de 2005, o então ex-ministro da Defesa, do Mar e de Outras Coisas num Título Muito Comprido que Também o Apanhou de Surpresa, Paulo Portas, anunciou a sua retirada de cena, e a consequente saída para o estrangeiro (Estados Unidos no seu caso particular), para estudar... Um tipo de decisão que viria a fazer escola. Quanto ao bobo, dava ouvidos à boataria mal-intencionada e extrapolava os futuros possíveis para um obscuro político caído em desgraça...

26 de janeiro de 2014

A luz ao fundo do túnel



Desenhada em 2004, na altura em que Durão Barroso chefiava o governo, esta BD satirizava alguns dos chavões e tiques do executivo. Desde logo pelo título: a tal "luz ao fundo do túnel" tantas vezes anunciada mas que nunca existiu; depois o designado "discurso da tanga" - Vocês deixaram o país de tanga! - que teve como efeito imediato o "crash" bolsista e a retracção económica; e ainda (no último quadrado) a disparatada negação da evidência (Barroso), o absurdo negócio dos submarinos (Portas), e a voragem financeira de Manuela Ferreira Leite, unicamente preocupada em maquilhar o défice à custa de receitas extraordinárias. Tal como a outra BD já apresentada, também esta apareceu no 30 de Fevereiro em flash,e durante pouco tempo - pois a "luz ao fundo do túnel" só brilhou para Durão Barroso, que na primeira oportunidade fugiu para Bruxelas.

25 de janeiro de 2014

Jardim de Bananas


Como consequência da derrota nas legislativas de 2005, Santana Lopes regressou, por um breve período, à presidência da Câmara Municipal de Lisboa, que deixara entregue ao seu "vice" aquando da indigitação para primeiro-ministro. Figura habitual do chamado jet-set lisboeta e das revistas "cor-de-rosa", esta tira jogava igualmente com o seu provável regresso à Kapital, então uma das discotecas da moda na noite alfacinha e lugar de pouso da referida fauna.

20 de janeiro de 2014

O Zé, a Maria Lusa e o Político


Ainda sobre o tema dos nitrofuranos, abordado na entrada anterior, existe esta tira datada de 2003, que não chegou a ser publicada no 30 de Fevereiro. Com a carne proveniente dos aviários sob suspeita, cada um tirava as suas conclusões...

18 de janeiro de 2014

Jardim de Bananas



Esta tira, posteriormente redesenhada para o livro 'Tamos Tramados, tem a sua origem num caso de 2003: a detecção do uso de nitrofuranos - um anti-bacteriano com potencial cancerígeno - em galináceos provenientes de dezenas de explorações, as quais representavam uma percentagem considerável do mercado. Isto abalou, por algum tempo, a confiança dos consumidores na segurança alimentar. Em 2005 o caso ainda mexia, nos tribunais, devido aos prejuízos que afectaram todo o sector, desde as rações aos avicultores e às churrascarias.

16 de janeiro de 2014

Gajo Borbulha


Em 1981, Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincoln publicaram uma investigação histórica, "O Santo Graal e a Linhagem Sagrada", que, à época, passou praticamente despercebida. 22 anos depois, Dan Brown pegou nos dados da investigação e construiu à volta deles uma novela com o sucesso que se sabe, arrastando consigo uma polémica de dimensão proporcional. Quando esta tira surgiu, em meados de Março de 2005, o assunto ainda fazia correr muita tinta. A deturpação jocosa "Código d'Avintes" foi utilizada por outras pessoas, mas foi no 30 de Fevereiro, pela boca do Falópio, que ela se ouviu pela primeira vez.

13 de janeiro de 2014

O Partido Sexy




Esta entrada vem a propósito de mais um congresso de consagração a Paulo Portas, o líder que moldou o velho CDS à sua imagem (que outro significado pode ter o acrescento "PP"?) e no qual se mantém à frente desde 1997 - ou desde 1992, se considerarmos que Manuel Monteiro foi uma criação da sua autoria. Houve contudo um curto interregno no qual a liderança recaiu sobre Ribeiro e Castro, e são precisamente desse tempo as imagens apresentadas.
Ribeiro e Castro considerou um dia que o partido era pouco atractivo e afirmou que o CDS-PP - democrata-cristão, recorde-se - devia tornar-se num partido "sexy"! Com "cristão" e "sexy" na mesma frase, pretendia talvez levar o CDS-PP do convento para o cabaré e, no 30 de Fevereiro, sugeriu-se um retoque no símbolo do partido: a adaptação aos novos tempos que se anunciavam...